Arte: Daniela Nobrega

Arte: Daniela Nobrega

No dia 8 de março, muito se discute em sociedade sobre o papel da mulher, a desigualdade de gênero e a necessidade de direitos iguais. Sem dúvida, é uma discussão fundamental. Aqui no Força Meninas discutimos o assunto o ano inteiro e, por isso, convidamos para uma reflexão ainda mais elaborada nesta semana: que mundo nossas meninas terão nas mãos quando forem mulheres?

A sociedade muda cada vez mais rápido, ficando cada vez mais conectada e imersa em tecnologia. Ao mesmo tempo, indicadores de igualdade de gênero e raça como a renda média, escolaridade e violência mudam discretamente ao longo de décadas. Soma-se a isso uma urgência de pensar um mundo sustentável, já que nossos recursos são cada vez mais escassos.

Nesse cenário, quais serão os desafios enfrentados pelas garotas? Conseguiremos entregar um mundo mais justo para elas?

A experiência do Força Meninas deixa claro que é preciso investir nessas agentes de transformação. “Nos workshops, acompanhamos o despertar de muitas meninas que, apesar de demonstrarem ter vontade de transformar o mundo e serem protagonistas de suas histórias, ainda não tinham se visto nesse papel. Muitas delas não enxergam seu real potencial e por isso não se veem como agentes da mudança”, diz Deborah de Mari, nossa fundadora. “Conscientizamos as meninas de que elas serão as líderes do futuro que precisamos construir, mas nosso trabalho começa agora, com o desenvolvimento de autoestima, de suas habilidades e na capacidade de acreditarem no seu potencial”, diz.

Para debater essas tendências para o futuro, convidamos outros especialistas e ativistas, focando em alguns aspectos-chave: educação e mercado de trabalho, igualdade de gênero e meio ambiente. Neste dia de reflexão, vale nos debruçarmos no assunto para entender que mesmo que não venham da noite para o dia, as mudanças acontecem e é bom que estejamos preparados e que preparemos nossas meninas para elas.

 

Educação e mercado de trabalho

As meninas brasileiras têm avançado consideravelmente em educação nos últimos anos, o que refletiu também em uma inserção ainda maior no mercado de trabalho. No entanto, persistem as desigualdades já há muito conhecidas: apesar da maior escolaridade delas, as meninas se interessam menos por áreas de exatas e tecnologia, tidas como as profissões do futuro e que ainda apresentam salários mais elevados. Também na escola, segue sendo difícil incorporar discussões sobre gênero, raça e sexualidade na sala de aula, o que destruiria estereótipos enraizados, contribuiria para o desenvolvimento humano de meninos e meninas, e aceleraria o caminho até a igualdade, além de diminuir, por exemplo, o índice de gravidez na adolescência.

Ainda assim, as mulheres são maioria nos cursos superiores. Nos cursos de tecnologia, no entanto, elas desistem mais do que os homens por não encontrarem um ambiente acolhedor e por não se sentirem bem-vindas. Quando se formam, as desigualdades persistem e se agravam no mercado de trabalho: faltam mulheres na liderança, os homens ganham mais e todo e qualquer setor e área, há muitos obstáculos para as promoções e a maternidade é vista como um peso à carreira. Se mantivermos o ritmo atual, levaremos mais de um século para atingir apenas a igualdade salarial. Coordenadora do Fundo Elas, instituição que apoia projetos de meninas nas exatas, Amália Fischer lembra que se hoje temos o salário maior do que antes, é porque já houve muita luta para reverter esse cenário. Ou seja, informar é fundamental.

“Essa é a sociedade do conhecimento e da informação, esses são instrumentos valiosos. As mulheres estão no mundo do conhecimento, mas ainda não ocupam as áreas mais valorizadas (exatas e tecnologia). É onde elas têm que estar agora, ou em 30 anos veremos aumentar novamente essa disparidade salarial”, analisa ela.

 

Para você ter em mente:

  • As mulheres têm, em média 8,2 anos de estudo no Brasil, comparado a 7.8 dos homens (IBGE).
  • No último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), só 0,5% das meninas alcançaram proeficiência em Ciências, metade do índice dos meninos.
  • De acordo com o estudo “Um panorama sobre resolução colaborativa de problemas no Brasil” que usa dados do Pisa, as meninas têm, em média, mais habilidade para trabalhar em grupo e resolver tarefas do que os meninos.
  • Apenas 15,53% dos alunos de cursos relacionados à computação são mulheres (Inep/MEC).
  • 51% da população do planeta, as mulheres são apenas 33,1% do total de graduados em carreiras de ciências, tecnologia e matemática (Unesco).
  • Em 2020, o Brasil pode ter défict de até 408 mil profissionais de programação (pesquisa da Softex). Oportunidade é o que não vai faltar para as meninas da área!  
  • Em média, os homens ganham mais que as mulheres em qualquer cargo ou área no Brasil. De acordo com o IBGE, eles ganham cerca de 24% a mais que elas.
  • Em cargos operacionais eles ganham 58% a mais e em funções de coordenação, gerência e diretoria, 46% (Catho, 2017)
  • Desde o começo do ano, ter salários diferentes para homens e mulheres é ilegal na Islândia. Foi o primeiro país do mundo a fazer esse tipo de lei.
  • Segundo a Oxfam, serão necessários 170 anos para alcançar a igualdade salarial no mundo.

 

Meio ambiente

Esse tema não era motivo de alerta até poucas décadas atrás. Foi quando passamos a ter real dimensão do nosso impacto no planeta que sustentabilidade virou a palavra da vez. E uma coisa é fato: nossas meninas terão que ter essa preocupação no futuro. Muitos dos recursos abundantes para as gerações anteriores não deverão fazer parte da realidade destas futuras mulheres. O petróleo e recursos fósseis são exemplos, já que um dos nosso grandes objetivos é deixar de depender deles. Outra grande preocupação ambiental é não permitir que o planeta aqueça mais do que 1.5°C, meta estabelecida no Acordo de Paris.

Heloísa Garcia da Mota, gerente de Engajamento do Greenpeace Brasil, é otimista em relação a isso. E não é sem motivo: foi graças ao engajamento de mais de um milhão de brasileiros que o projeto de lei Desmatamento Zero chegou ao Congresso Nacional. “Sem os voluntários e ativistas que se mobilizaram, a Lei nem poderia estar em votação ou em trâmite no Congresso. Isso mostra que o desejo do desmatamento zero não é do Greenpeace, mas é um desejo dos brasileiros, e isso é uma das coisas que nos motiva muito a ter esperança”, diz ela. E bons exemplos não faltam: há os Multiplicadores Solares, 30 jovens que aprenderam sobre a importância da energia solar, realizaram oficinas de objetos solares e instalaram placas solares em escolas públicas, e os Defensores dos Corais, que reuniram quase mil pessoas na praia de Copacabana pela causa.  

“Acredito que só podemos mudar o mundo se pudermos descobrir em nós o que nos inspira e o que nos conecta com o meio ambiente, mas são muitas ações possíveis”, diz Heloísa. Você pode assinar petições, reduzir o consumo de carne, consumir alimentos orgânicos, andar mais de bicicleta e a pé, trocar o carro pelo transporte público, tornar-se voluntário em alguma organização, instalar placas solares em casa, fazer o descarte adequado do lixo, entre outras ações. Infelizmente, não estamos deixando o melhor dos legados ambientais, mas nada é impossível de mudar. Mais do que nunca é hora de dar o exemplo e de inspirar as garotas a fazer o mesmo!

Para ter em mente:

  • Para o Brasil cumprir a meta estabelecida no acordo de Paris, é preciso zerar o desmatamento e ter energia vindo de fontes renováveis e limpas.
  • No entanto, no fim de 2017, o governo brasileiro concedeu mais de 1 bilhão de reais em subsídio para a indústria de petróleo. Além disso, áreas gigantescas e protegidas estão sob risco de desmatamento, pois grupos poderosos têm interesses nelas.
  • Em 2016, o desmatamento na Amazônia, sozinho, foi responsável por 26% das emissões domésticas de gases do efeito estufa. Nos últimos anos, medidas governamentais haviam freado o desmatamento em até 70%.
  • A geração de energia elétrica no Brasil emite menos CO2 do que no resto do mundo, especialmente por conta do pouco uso de combustíveis fósseis e da presença de energia vindo da água e da bioenergia.
  • Por aqui também estamos aumentando a geração de energia vinda de fontes limpas e renováveis, que chegam a 81,7% do total, segundo o Ministério de Minas e Energia.
  • A energia eólica cresceu 55% em 2016 e em anos anteriores evitou que o Nordeste passasse por racionamento.  A energia solar também cresceu 45%, enquanto óleo fóssil, gás natural e carvão mineral recuaram 52,8%, 28,9% e 9,8%, respectivamente.

 

Igualdade de gênero

Já deu para entender que o desafio não é pequeno, né? Como se não bastassem as mudanças ambientais e no mercado de trabalho, precisamos mudar também a desigualdade entre os gêneros. Afinal, não queremos que nossas meninas, quando mulheres, tenham que fazer tripla jornada e sejam as únicas responsáveis por suas casas e filhos, não é mesmo? Queremos que elas sejam livres: hoje para brincar e no futuro para serem o que quiserem e ocuparem o espaço que desejarem. Seja em casa, no trabalho, na política ou onde os sonhos permitirem.

“Do ponto de vista do comportamento, as ideias já se espalharam e acho muito difícil voltarmos. Mas institucionalmente temos que ficar atentas”, acredita Raquel Marques, diretora e presidente da ONG Artemis, que destaca a maior naturalidade com que a nova geração trata a sexualidade, a não obrigatoriedade da maternidade e questões afins. “É difícil saber se isso aumentou ou só saiu da invisibilidade, mas um número cada vez maior de mulheres não se coloca, social ou sexualmente, a serviço do homem. Isso é um fenômeno poderoso que atravessa auto-estima, consumo, auto-imagem”.

Para Raquel, a conquista mais importante ainda por vir é a descriminalização do aborto. Um assunto que pode parecer desconectado das meninas de hoje, mas que é importante no movimento de mulheres porque diz respeito à autonomia sobre o corpo, além de tirar milhares de mulheres da situação de clandestinidade (atualmente, o aborto clandestino é uma das maiores causas de mortalidade materna). “Mas para transformar a situação das mulheres, nada é mais necessário do que o encontro. Que as mulheres conversem sobre suas questões individuais, porque via de regra são na verdade problemas coletivos. Precisamos buscar soluções por nós mesmas e multiplicar o conhecimento. Há muita coisa que conseguimos fazer sozinhas”.

 

Para ter em mente:

  • Entre 190 países do mundo, o Brasil está em 152º no quesito igualdade de gênero na política. Ou seja, estamos entre os países com menos representação feminina na política. Apenas 3 anos atrás, estávamos 30 posições mais bem colocados.
  • Em 2017, foi a primeira vez na década que o Índice de Igualdade de Gênero caiu. Ou seja, no último ano o mundo ficou mais desigual.
  • O Brasil é o 90° melhor país para ser mulher, considerando 144 países do mundo.
  • Temos o vergonhoso título de pior país na América do Sul. para nascer menina. Por aqui, fenômenos como a violência, pobreza e casamentos infantis são grandes obstáculos para desenvolvimento das meninas.

 

Está claro: se não fizermos nada, dificultaremos o caminho das futuras mulheres, que com certeza têm o potencial de contribuir diretamente com o mundo que começa a se formar. Competências a elas não faltam, então aproveitemos o dia 8 de março para garantir que também não faltem oportunidades. A boa notícia é que temos motivo de sobra para querer mudar o mundo. Quer incentivo maior do que o sorriso das meninas?

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