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No dia 14 de março, o Brasil perdeu Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro. Mulher negra, bissexual e nascida no Complexo de Favelas da Maré, Marielle lutava pelos que foram esquecidos pela política tradicional durante séculos, grupo em que ela mesma se incluía. Infelizmente, Marielle não é um caso isolado, já que são muitos os casos de negros e negras – muitos ainda adolescentes – assassinados no Brasil. Na verdade, representam 71% dos homicídios registrados. É o reflexo de um país ainda racista e com fortes memórias da época da escravidão.  

Para se ter uma ideia, as brasileiras negras são, segundo o IBGE, minoria entre as mulheres com ensino superior completo. Mas mesmo para elas a desigualdade continua, já que as mulheres negras com ensino superior ganham cerca de 43% do que ganha um homem branco com o mesmo nível de estudo.

E não para por aí: as meninas negras têm maiores índices de gravidez na adolescência, maiores índices de atraso escolar no ensino médio e menor presença entre as maiores notas do ENEM, mesmo que representem a maior parte dos inscritos.

“O mundo ocidental é pensado a partir do corpo branco, tudo que difere dele é tido como menos humano. Nessa sociedade, o negro é menos humano, e em uma sociedade machista e patriarcal, as mulheres negras são ainda menos”, explica Daniela Gomes, doutoranda em estudos Africanos e da Diáspora Africana na University of Texas (EUA). Por isso, muitas vezes as demandas das mulheres negras diferem das mulheres brancas. A proibição para trabalhar é um exemplo típico, já que as negras ocuparam-se do trabalho doméstico nas casas das mulheres brancas que se emanciparam. Na maioria dos países, o voto feminino também foi restrito às mulheres brancas quando foi conquistado.

Por isso, as mulheres negras lutam pela visibilidade de suas realidades e de suas pautas sociais. Era o que fazia Marielle em seu trabalho incansável na Câmara do Rio de Janeiro. “Em uma sociedade racista como é a nossa, as mulheres negras estão na base da pirâmide”, complementa Daniela, que também é jornalista e ativista do movimento negro. “Se as mulheres negras forem libertas, todas as outras o serão, porque dessa forma se quebra toda uma estrutura de opressão”.

E considerando a história do Brasil, não é nada exagerado chamar o racismo de estrutural. Fomos o último país do mundo a abolir a escravidão, que oficialmente durou mais de 3 séculos por aqui. Os resquícios permanecem, não à toa os negros e negras têm menor acesso à saúde, as mulheres negras recebem menos anestesias no parto, entre outros fatores de vitimização de uma enorme população do país. A pesquisadora Daniela Gomes chama esse fenômeno de genocídio. “Por mais que só se diga genocídio quando há ação direta do Estado contra uma população específica, não há outra forma de chamar o que acontece no Brasil. A população negra tem sido vitimizada pelo Estado brasileiro em muitos aspectos diferentes. E isso é por conta de uma estrutura de poder racista e sistêmico. Portanto, é genocídio”.

Nesse contexto, acredita ela, rebelar-se contra a morte de Marielle torna-se ainda mais necessário. “A morte de Marielle não é exceção em um Estado muito violento contra os corpos negros, e por isso é tão importante que todos que acreditam em uma sociedade mais justa continuem fazendo barulho”, diz Daniela. “Silenciar Marielle é uma tentativa de silenciar as pessoas que são contra esse movimento de ódio e excludente”.

Marielle se foi, deixando um legado de lutas e esperança de que é possível – e necessário – lutar por um mundo mais justo para nossas meninas e meninos. A boa notícia é que existem muitas mulheres como Marielle para nos inspirarmos nos mais diferentes campos.

Confira algumas delas que fazem a diferença no Brasil:


1) Sônia Guimarães

Área de atuação: Física

Sônia Guimarães é física e professora do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Ela atua na área de física aplicada e também já conduziu pesquisas sobre sensores de radiação infravermelha.

Desde criança, a cientista já adorava matemática. Estudou em escola pública a vida toda, trabalhou na adolescência e prestou vestibular para engenharia civil, seu sonho na época.

A física foi uma segunda opção por ter menor procura no vestibular, mas acabou se tornando sua grande paixão.

Anos depois, tornou-se a primeira mulher negra brasileira a conseguir um doutorado na disciplina.

 


2) Lívia Natalia

Área de atuação: Literatura

Lívia é uma poetisa natural de Salvador. Seus versos abordam o cotidiano dos negros e negras do Brasil e alguns dos principais desafios enfrentados, como a violência policial. Ela tem os seguintes livros publicados: Correntezas e Outros Estados Marinhos; Água Negra; Água Negra e outras águas; Dia Bonito para Chover. Além disso, participou de outras antologias poéticas.

Em 2010, “Água Negra” ganhou o concurso Banco Capital de Poesia, o que ocasionou sua publicação e abriu as portas do mercado para Lívia, que disseminou sua escrita até mesmo fora do Brasil (especialmente em Portugal). Seu livro “Correntezas e outros estudos marinhos” chegou a ser incorporado na bibliografia de algumas escolas da capital baiana. Um dos poemas deste livro, que narra justamente o abuso de poder da polícia militar, foi censurado. Censurado mesmo, num gesto reconhecido até pela ONU, e que nos faz ter certeza de quão poderosa é a nossa palavra – e o trabalho de Lívia.


3) Cecília Olliveira

Área de atuação: Jornalismo

Cecília é jornalista e especialista em segurança pública, usando os dados e a informação para denunciar as violações de direitos humanos no Rio de Janeiro e no resto do Brasil. Formada em jornalismo e especializada em Criminalidade e Segurança Pública pelo Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, Cecília foi consultora da Anistia Internacional e criou a plataforma Fogo Cruzado, que monitora os tiroteios no Rio de Janeiro. O app veio da percepção de que os dados oficiais não davam conta da realidade enfrentada pelos cariocas. Em 2017, a equipe captou, em média 16 tiroteios/disparos por arma de fogo diariamente na região metropolitana do Rio.


4) Nadia Ayad

Área de atuação: Engenharia de materiais

O grafeno, um composto feito a partir de carbono, pode ser usado para dessalinizar água e torná-la potável. Quem descobriu como fazer isso foi Nadia Ayad, engenheira de materiais formada pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) do Rio de Janeiro e uma das cientistas brasileiras mais promissoras. A descoberta fez dela a vencedora do prêmio Graphene Challenge de 2016.

A veia cientista corre na família, sendo a mãe e os irmãos de Nadia também pesquisadores. Depois da graduação, ela foi bolsista do programa Ciências Sem Fronteiras e estudou em Manchester, na Inglaterra. No entanto, cientistas negras como Nadia compõem apenas 5,5% do total de bolsistas do CNPq. É uma minoria, mas se depender de Nadia não será assim por muito tempo. Atualmente, ela faz seu pós-doutorado na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e sonha em transformar a ciência brasileira.


5) Rosana Paulino

Área de atuação: Artes plásticas

Você já pode ter visto as obras acima, que denunciam a condição da mulher negra na sociedade brasileira. Elas são de autoria de Rosana Paulino, uma grande artista plástica brasileira contemporânea e que se destaca por abordar questões sociais, étnicas e de gênero, especialmente as violências racistas e as marcas deixadas pela escravidão. Suas obras estão expostas em museus como o MAM, Museu Afro-Brasil e o University of New Mexico Art Museum (EUA).

Além de uma artista incrível, Rosana é também doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da USP e especialista em gravura pelo London Print Studio.

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