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Gênero e raça ainda são marcadores importantes em avaliações sobre desempenho em ciências exatas. 

Há anos os indicadores de educação mostram que em geral as meninas têm desempenho menor do que os meninos nas disciplinas de exatas. O último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), de 2015, mostrou que o dobro de meninos alcançou o nível de proficiência em Ciências (1% deles contra apenas 0,5% das meninas) e que a diferença média chegou a 15 pontos em Matemática.

Não  é preciso esforço para deduzir as consequências disso: elas são só 33,1% do total de graduados em carreiras de ciências, tecnologia e matemática, segundo dados da Unesco. Também somam apenas 17% dos profissionais de programação do país.

Mas por que essas diferenças insistem em aparecer, mesmo em um país onde as meninas são mais escolarizadas que os meninos (8.2 anos de estudo contra 7.8 anos deles, segundo o IBGE)? Para quem entende do assunto, a resposta é unânime: cultura. Mais especificamente os estereótipos de gênero que são reforçados desde a mais tenra infância e que refletem em todos os aspectos, incluindo o “gosto” e aptidão por diferentes áreas do conhecimento.

A história de Laura Leal de Souza, de Belo Horizonte, mostra bem isso. A jovem de 17 anos queria prestar a Olimpíada Brasileira de Matemática, mas não se sentiu encorajada em seu colégio. Lá, ela percebeu que os cursos preparatórios para competições da área eram formados majoritariamente por meninos, e os professores faziam piadas de cunho machista. Por isso, Laura resolveu investigar como meninos e meninas da escola percebiam as ciências exatas. Através da aplicação de questionários anônimos e de entrevistas, ela notou que os meninos são mais encorajados na área e as meninas carecem de incentivo. Observou também que muitos dos garotos diziam de uma maneira quase automática que gostavam de Exatas, ao passo que as meninas apaixonadas por essas matérias tinham mais argumentos para justificar a escolha. Por seu trabalho, Laura foi premiada pela revista Inciência, tendo a oportunidade de transformá-lo em artigo científico.

Laura na Mostratec 2017. Foto: Nana Soares

Gênero e raça

Laura é mais uma prova que competência e aptidão para as disciplinas de exatas não dependem de gênero ou raça. Mas infelizmente as desigualdades do país privam muitas garotas iguais a ela de ter a mesma oportunidade. Um levantamento realizado pelo Estadão com dados do Enem 2016 mostrou que as meninas negras eram o grupo menos presente na “elite” da prova – isto é, as mil maiores notas. Apesar de serem a maioria dos inscritos, elas foram apenas 6% das mais bem classificadas. Em comparação, os meninos brancos, que são apenas 15% dos inscritos, compõem 50% do grupo de maior desempenho. E o padrão é o mesmo nos dois anos anteriores.

Entre as quatro áreas de conhecimento exigidas pelo Enem, é exatamente em Matemática e Ciências da Natureza que o desempenho de meninos e meninas, brancos e brancas é mais desigual, chegando a 81 pontos em matemática. Para Amália Fischer, coordenadora do Fundo Elas, isso mostra a complexidade das desigualdades na Educação. “Mulheres com maior escolaridade não significa que elas tenham as melhores notas ou que estejam ocupando todos os espaços. Se há menos jovens negras indo para a universidade é porque o racismo existe, porque as desigualdades se manifestam dentro da educação”, frisa ela, que completa: “As mulheres estão no mundo do conhecimento, mas ainda não estão ocupando as áreas mais valorizadas. É onde elas têm que estar agora, ou em 30 anos teremos áreas dominadas por homens e, consequentemente, as mulheres ganhando menos”.

Um novo futuro é possível

Amália pode, através do Fundo Elas, ajudar a mudar essa realidade. Isso porque a organização gere o programa “Elas nas Exatas”, que visa favorecer a inserção das meninas nas áreas de ciências tecnológicas e exatas através de projetos nas escolas do Brasil. Em 2017, 10 trabalhos foram apoiados pelo Fundo, além de outros 10 em 2018.

A educadora Eva Bahia participou de um dos projetos vencedores do primeiro edital, o Nativas Digitais, que trabalhou com jovens de uma escola rural no município de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Com um time de mais de 16 educadoras, a equipe ofereceu oficinas sobre temas como matemática, algoritmo e design web a 27 jovens do Ensino Médio. Como conta a idealizadora, o pensamento de que essas não eram para meninas (ainda mais do interior) é tão enraizado que várias alunas não tiveram coragem de se inscrever em público, procurando a equipe em um momento de maior discrição. Elas também ouviram que o projeto deveria ser para aos garotos, pois eles seriam melhores em matemática.

“Os meninos chegam em casa e varrem a calçada e jogam o lixo fora, enquanto as meninas, vistas como cuidadoras, fazem todo o resto. Ou seja, um professor criado nesse sistema sexista vai, involuntariamente, dar mais atenção aos meninos. Isso pode inibir as meninas de buscarem mais conhecimento. São muitas camadas de desigualdade”.

Um esforço de todos

Para um problema cultural e enraizado, não há saída fácil ou rápida. Esse é um outro ponto de convergência entre quem se debruça sobre as desigualdades de gênero e raça na educação, especialmente nas exatas. Para Amália Fischer, do Fundo Elas, essa é uma luta que tem que contar com a participação de sociedade civil, governo, instituições privadas e organizações multilaterais. “Não estamos falando só de educação e sim do direito das meninas e mulheres ocuparem todos os espaços da sociedade. Por isso, se não há movimento da sociedade como um todo, é difícil transformar”, diz ela.

A educadora baiana concorda, mas pondera que hoje a mudança acontece mais nas mãos da sociedade civil. “O projeto mostrou que quando conseguimos dialogar com a grade de ensino nos espaços formais de educação, temos resultados magníficos”, comenta. “A partir do momento que mostramos os caminhos, elas começaram a sonhar, procurar cursinhos, etc. Não empoderamos ninguém, só colocamos um espelho para despertar o que já está dentro delas”.

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