Arte: Daniela Nóbrega

Arte: Daniela Nóbrega

O presente é digital. O futuro, então, nem se fala. É nesse universo de oportunidades e conexões que as meninas estão crescendo e se desenvolvendo, mas como qualquer coisa o digital também pode ter o seu lado perverso. Segundo pesquisas recentes que começam a se debruçar no efeito das redes em nossas vidas, o mau uso das redes sociais pode aumentar a ansiedade e a depressão em pré- adolescentes e adolescentes, ou ao menos potencializá-los em quem já tem.

“As pesquisas apontam essa relação, mas não só os resultados são impactados por muitas variáveis, como as diferentes redes sociais trazem problemas distintos, dependendo da característica de cada uma delas”, explica Ivelise Fortim, psicóloga clínica, e coordenadora do Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação (Janus) na PUC-SP. Por exemplo: há pesquisas que indicam que o Instagram desperta uma relação mais negativa com o corpo do que o Facebook e que o Snapchat gera mais ansiedade.

Nesses estudos, fatores como a idade, o gênero, orientação sexual e raça fazem diferença no que é observado. As meninas, que na população geral já têm maiores índices de depressão do que os meninos, mantém a tendência com relação aos distúrbios causados pelo uso excessivo de redes sociais, sendo mais afetadas. Embora não haja um estudo especificamente sobre o porquê disso, é importante lembrar que as meninas são geralmente mais cobradas do que os meninos e sofrem mais pressões quanto ao corpo e à autoimagem. A pesquisa TIC Kids Online Brasil, de 2016, aferiu que 82% das meninas já postaram vídeo ou imagem em que aparecem, número 12 pontos maior que o dos meninos.

Também são mais afetados os jovens que passam mais tempo do dia e da semana nas redes e o tipo de uso que fazem desse universo: quanto mais passivo o uso (ou seja, o jovem não produz tecnologia e apenas a consome), maior o perigo. Em geral, ter uma grande quantidade de pessoas em sua rede também pode ser negativo para a saúde mental da adolescente. Nas palavras de Ivelise Fortim, “quanto mais pessoas para dar feedback, pior é”. Vale lembrar, no entanto, que esses diagnósticos não são criados pelas redes sociais, mas sim por ela acentuados.

“Mas os jovens também apontam o lado bom das redes, que enxergam como uma ferramenta importante de suporte social”, explica a psicóloga.

 

Algumas pesquisas sobre o assunto:

LIFE IN LIKES  (Reino Unido, 2018) – Redes sociais por um lado têm efeitos positivos, permitindo que os os adolescentes mantenham contato com outras pessoas, mas por outro fazia com que eles se preocupassem com coisas que eles não podiam controlar. Os grupos mais velhos, que seguiam mais celebridades e pessoas desconhecidas nas redes, se comparavam mais e preocupavam-se mais com sua identidade.

THE MONITORING OF THE FUTURE (Reino Unido, 2017) – Adolescentes que passam mais tempo que a média em atividades relacionadas a uma tela (celular, tablet, computador, etc) têm maior tendência a estarem infelizes e os que passam mais tempo que a média em atividades que não precisam de tela têm maior tendência a estarem felizes. No entanto, a existência da relação não quer dizer que os fatos são causa e consequência. Ou seja, não necessariamente eles são infelizes porque passam mais tempo online.

 

Moderação é a chave da questão

Usar demais é prejudicial, mas em nossa sociedade é praticamente impossível ficar desconectado. Ainda mais para uma geração que tem contato com a tecnologia desde sempre. É preciso, então, encontrar um meio-termo, fazendo uso das redes de maneira a extrair o que ela tem de melhor.

A questão é: como determinar o que é mau uso das redes sociais? Não há uma resposta única e universal, mas a psicóloga Ivelise fortim dá alguns indícios que apontam quando a relação dos jovens com o digital não está mais saudável. “Deixar de fazer outras coisas para ficar na rede social ou colocar-se em situação de risco por causa dela não são bons sinais”, garante. Alguns exemplo disso são:

  • Faltar na escola por conta do sono, após ficar na internet até muito tarde.
  • Não conseguir realizar atividades como almoçar e tomar banho sem mexer no celular
  • Ir mal na escola por não sair das redes e não estudar
  • Tirar selfies dirigindo ou em lugar perigoso apenas para postar nas redes sociais.

“Pense na relação com comida: não é porque ela está disponível o tempo todo que deve-se entupir, ou há consequências. Com as redes sociais é a mesma coisa: não se pode deixar de fazer outras coisas em função das redes sociais ou ter uma vida baseada nela. Tudo que é excessivo é prejudicial”, resume a pesquisadora.

Infelizmente, as meninas parecem ser mais adeptas a esses comportamentos. É o que aponta a última TIC Kids Online Brasil, pesquisa que mapeou o uso e a percepção de jovens brasileiros entre 9 e 17 anos sobre a internet. De acordo com a TIC, cerca de 23% das meninas já deixou de comer ou dormir para usar a internet (17% entre os meninos), 21% se sentiu mal por não poder usar a internet, 23% passou menos tempo do que devia interagindo com a família, amigos ou fazendo a lição de casa porque estava na internet. E 24% delas tentou parar de usar, mas não conseguiu.

Para reduzir o uso das redes sociais, dicas simples podem funcionar: desligar as notificações e tirar os aplicativos da tela inicial, por exemplo, tornando mais difícil o acesso a eles, ainda que seja apenas por alguns cliques.

Proteja sua menina: converse com ela

Essa noção não é automática, mas sim algo que deve ser passado à sua menina. Os pais, responsáveis e a escola têm como papel guiar os jovens e fomentar o pensamento crítico para que eles saibam avaliar quando é hora de deixar o celular longe e também de como fazer um uso seguro das redes. Assim como em todos os aspectos da relação com as meninas, o diálogo é a melhor ferramenta.

“Ter critérios do que é realmente importante no digital é muito importante, e isso quem pode fazer é a família. Para o adolescente tudo é importante, mesmo uma única mensagem no Whatsapp. Dar essa noção tira a urgência de checar o digital”, explica Ivelise. Outro ponto fundamental é discutir criticamente o conteúdo a que o jovem tem acesso. Lembre-se que estamos na era das notícias falsas, o que reforça a importância dessa conversa.

Não esqueça também de enfatizar que não há problemas em usar as redes, mas que é preciso pensar quando o uso é realmente necessário. A saúde mental das meninas agradece suas dicas.

Redes sociais e segurança

Falar de saúde mental e redes sociais sem falar de segurança é um discurso incompleto, já que os temas conversam e muito entre si. Afinal de contas, uma menina vítima de discurso de ódio ou cyberbullying também pode ter alterações em sua saúde mental, como baixa auto-estima, depressão e isolamento social. Além disso, é preciso ter certeza de que os dados e informações trocadas na rede estão seguras, fora o desafio de conciliar seu papel parental sem interferir na privacidade e autonomia de sua menina.

Na próxima quinzena (mais especificamente dia 25 de abril) publicaremos um material dedicado especificamente a isso, já que são muitas as questões relacionadas à segurança na rede. Até lá, confira guias que podem te ajudar nessa conversa tão necessária com sua menina:


Evento em São Paulo

No dia 14/04, o Força Meninas realiza um evento sobre isso em São Paulo, destinado às meninas de 6 a 10 anos. “Como crescer mais saudável na geração selfie?” acontece das 13h30 às 17h30 no Espaço Festa no Estúdio (Rua Inhatium, 193). Saiba mais:

As meninas de hoje enfrentam diversos desafios à sua saúde física, mental, social e emocional. Estes desafios são encarados pelas meninas, na maior parte das vezes, de maneira pouco saudável, impedindo-as de alcançarem todo o seu potencial. Nos últimos anos, estudos mostram que o aumento do uso da tecnologia e redes sociais aumentaram os índices de ansiedade, depressão em meninas cada vez mais cedo.

Conversar sobre essas questões de forma preventiva é uma forma de capacitar a sua menina para enfrentar os seus desafios diários com conhecimento e autoconfiança. Que tal levar a sua menina para dedicar uma tarde para refletir sobre o papel da tecnologia no seu dia a dia e desenvolver uma relação mais saudável consigo mesma e com o ambiente que a rodeia preparando-se para o futuro?

Temas abordados:

– Autoimagem: Tudo o que vejo nas redes é real? Como as comparações impactam a minha autoestima?
– Segurança digital e uso consciente: Como manter a minha privacidade e respeitar o próximo nas redes? (Ciberbullying, notícias falsas e conversas dificeis).
– Curiosas, inventoras e criativas: mulheres que mudaram o mundo com a teccnologia
– De usuária a criadora: Como usar a Tecnologia para mudar o mundo?

Ministrado por Déborah De Mari

Deixe um comentário