A paternidade pode ser transformadora. No caso do colunista, radialista e apresentador Marcos Daniel Piangers Barros, 37 anos, a experiência foi tão marcante que virou até tema de livro. Já são dois: “Papai É Pop – Volume 1” e “Papai É Pop Volume 2”. Eles trazem as aventuras vividas pelo autor e suas filhas, Anita e Aurora. São momentos comoventes, divertidos e que servem de inspiração para todos os tipos de pais.

Natural de Florianópolis, Piangers conta para o Força Meninas um pouco sobre a ideia dos livros, sua experiência como pai, a relação com a sua mulher e reflete conosco a importância de criar meios para desenvolver meninas mais autoconfiantes e felizes. Acompanhe a entrevista na íntegra!

a

[Força Meninas] Qual foi a sua reação ao descobrir que seria pai de menina?

Marcos – Fiquei muito feliz. Na verdade por não ter tido pai eu tinha uma inclinação a gostar da ideia de ser pai, de substituir aquela casa vazia que eu e a minha mãe tivemos por uma casa mais cheia de bagunça, risada e brinquedos. Sei que para minha esposa foi um desafio muito maior porque ela passou por mudanças fisiológicas, sociais e profissionais que, num primeiro momento, eu não entendia. Hoje eu entendo como é difícil uma mulher passar por um processo de gravidez.

Quando eu descobri que era a Anita e não o Bernardo, como a gente planejava, fiquei feliz porque não me importava com o sexo. Mas, ser pai de menina é descobrir as delícias de ter uma garota carinhosa, dengosa, querida, e fofa por perto. Foi todo um universo novo para mim, longe daquele mundo masculino que eu cresci na adolescência com meus amigos para outro mais sensível, que me ajudou a desenvolver uma série de habilidades e empatias. Costumo dizer que minhas filhas e minha esposa me deram tudo que eu tenho de melhor. Não era grande coisa antes de encontrá-las e hoje me sinto uma pessoa realizada, a mais feliz do mundo!

[Força Meninas] Como é ser pai de duas garotas e quais são seus medos?

Marcos – É maravilhoso. Ser pai de menina é uma descoberta constante, um novo mundo, uma possibilidade para inventividade, criatividade, para o carinho e sensibilidade para alguns temas como a igualdade de gênero, algo que eu nunca tinha imaginado ser tão importante antes de ter uma filha. Não tinha meus olhos e nem meus radares atentos a isso. Eu não percebia que a sociedade era agressiva, violenta e muitas vezes injusta com as mulheres. Esses são os meus maiores medos. Que a sociedade limite o potencial das minhas filhas, que elas deixem de ser tudo aquilo que podem ser por conta de estruturas sociais que as diminuem, deixam mais inseguras e que as distanciem dos seus sonhos. Por isso estou aqui para ajudá-las a passar por essas etapas e desafios da forma menos dolorosa possível.

[Força Meninas] Em sua visão, quais os maiores desafios de ser pai?

Marcos – Acho que hoje o maior desafio é a gente ter tempo. Normalmente o homem é incentivado a ser o provedor, o cara que está pagando as contas e se realizando profissionalmente. Isso faz também com que a gente fique longe de casa, e não crie um vínculo de afeto com os nossos filhos. É importante saber que, quanto mais distante a gente fica, mais distante os nossos filhos vão ser da gente. O maior desafio de ser pai hoje é estar presente, disposto para conversar sobre as coisas mais desimportantes do mundo. Ter paciência para falar sobre os desafios da infância e da adolescência que não são fáceis.

[Força Meninas] Você acredita que a relação com a sua mãe tenha sido importante para desenvolver seu potencial de liderança e autoconfiança?

Marcos – Acho que sim, a minha mãe foi sempre uma pessoa muito forte, que demonstrou muita liderança e capacidade de resiliência. Ela nunca foi uma pessoa que se deixou abater, que por mais que tivesse sido abandonada e tivesse que pagar todas as contas e, estar em todos os lugares ao mesmo tempo, seja o pediatra, a escola ou o trabalho ela estava lá. Fazia tudo com muito esforço e dedicação e sem se vitimizar. Foi bonito de ver isso, aprendi com ela e isso me trouxe também a capacidade de ir atrás do que posso ser e de entender que a vida é difícil e, é difícil para todo mundo. Mas a gente pode se ajudar e quando a gente se ajuda, se esforça, é mais feliz.

[Força Meninas] Como você ajuda a sua esposa ou companheira a desempenhar todos os papéis dela como mulher e como ela o ajuda a desempenhar os seus de homem.

Marcos – Existe uma espécie de padrão social em que a mulher é muito mais dedicada a ajudar o homem, a incentivá-lo, a negar muitas vezes sua vida social, profissional para que o homem seja bem sucedido. Acho que isso é um pouco injusto. Eu entendo as mulheres que querem ter essa posição, mas eu acredito que muitas delas são infelizes nessa posição subjulgada, em que apenas se doam para que os maridos sejam bem sucedidos.

Acredito que se o marido se esforçar ele consegue equilibrar sua vida profissional e familiar, deixando sua família mais feliz. Aqui em casa a gente entende que a realização profissional da minha esposa é tão importante quanto a minha. Que precisamos nos ajudar mutuamente, inclusive com participação das crianças.

[Força Meninas] Como você acredita que a relação com a mãe das meninas pode ajudar suas filhas a terem relações saudáveis no futuro?

Marcos – Acho que uma família estruturada oferece a oportunidade de as crianças terem essa referência. É muito comum a gente ver um ciclo do mau exemplo. Homens que abandonam os filhos e que se tornam pais que abandonam também. Assim como meninas que engravidam muito cedo porque não tem o pai por perto e suas filhas que engravidam muito cedo também. Acredito que quando a gente consolida uma relação saudável, seja ela com a configuração que ela tiver, que demonstre que a família é um núcleo que se ajuda para ser mais feliz, que não fique pesado pra ninguém. Gosto de dizer que estou aqui em casa, dividindo as tarefas, participando de todas as questões para que as minhas filhas também tenham como referência homens que participam, cuidam dos seus filhos. Assim elas não aceitarão um homem ou companheiro que seja menos que isso.

[Força Meninas] Como surgiu a ideia do “Papai é Pop”?

Marcos – O livro é uma compilação de crônicas que eu escrevi a respeito da minha relação com as minhas filhas. Não era a ideia lançar um livro, mas quando a editora me convidou eu imaginei que podia ser uma boa fotografia da vida que a gente tinha, quando elas tinham 8 e 2 anos. Foi uma experiência despretensiosa que tocou a vida de mais de 150 mil pessoas. Os livros venderam mais de 150 mil cópias e através da internet muito mais. Na internet a gente alcança mais gente e esse princípio do pai participativo, desse caminho para o homem se realizar também junto a sua família é revolucionário e transformador. Acho que a gente tem a oportunidade de ter uma sociedade mais igual e mais feliz se a gente discutir mais essas questões da participação masculina na criação dos filhos.

[Força Meninas] Você acredita que os homens estejam mais preocupados com a educação dos filhos?

Marcos – Acho que sim. Existem mais homens participando hoje, mas isso não significa que todos participem. Tem uma grande parcela da população que não tem pai. São seis milhões de crianças abandonadas que não tem o nome do pai na certidão de nascimento. Além disso, têm os que estão dentro de casa e mesmo assim não participam, não estão empenhados em serem presentes na criação e desenvolvimento da criança. Eu acho que os homens querem participar mais e isso é um sopro de esperança no coração de todo mundo. Mas acho que ainda tem um longo caminho pela frente.

[Força Meninas] Acha que no caso das meninas, os pais ainda tentam protegê-las mais do que se fossem meninos?

Marcos – Sem dúvida que sim. O mundo é mais perigoso para as mulheres, para as meninas e os pais sentem isso. Mas o que eu tento passar para minhas filhas é que elas saibam dos perigos que o mundo apresenta, que existe violência contra mulher, feminicídios, desrespeitos, assédio, violências cotidianas, micro machismos e, que sabendo disso, elas devem se preparar para vencê-los, para não aceitar, para se posicionar em relação a esses ataques. Eu posso proteger minhas filhas e deixá-las presas dentro de casa, tornando-as mais fracas ou então botar elas na rua para se posicionarem e terem a força suficiente para superar essas violências sociais diárias. Se estiverem preparadas, com apoio e a gente por perto, elas tem toda condição de vencer.

[Força Meninas] Existe algo do universo feminino que só tenha aprendido depois de ser pai de menina?

Marcos – Sem dúvida, quase tudo. Antes de ser pai de menina eu era um tapado, não sabia de nada, eu desconfiava inclusive que o desequilíbrio, a desigualdade de gênero era mimimi. Depois de um tempo fui vendo que a minha esposa, a minha mãe, as minhas filhas potencialmente passam por situações que são realmente revoltantes. Então esse universo feminino da minha mãe ter me criado sozinha, da minha esposa e das minhas filhas me trouxe sensibilidade de perceber essas discrepâncias sociais. Foi transformador, revolucionário ter filhas meninas e eu agradeço todos os dias porque elas me deram a capacidade de ver o mundo de forma mais empática e eu acho sim mais justa e que me dá ferramentas para ser melhor e mais gentil.

 

“Foi transformador, revolucionário ter filhas meninas e eu agradeço todos os dias porque elas me deram a capacidade de ver o mundo de forma mais empática

 

[Força Meninas] Na sua visão, qual a sua maior contribuição para as meninas?

Marcos – É estar por perto, presente, conversando e principalmente aprendendo com elas. Disposto a ouvir e sempre que eu puder de alguma forma contribuir. Mas, na maioria das vezes, eu mais aprendo do que ensino.

[Força Meninas] Quais são os maiores desejos do Marcos pai para o futuro das suas meninas?

Marcos – Eu quero principalmente que elas não se limitem nos seus potenciais, que sejam tudo que podem ser. Que não sejam limitadas por questões de desigualdade social, gênero ou diminuídas de alguma forma. Então me esforço para que de fato elas tenham um futuro brilhante, que sejam felizes na concepção delas, que explorem os seus limites e principalmente possam ajudar outras pessoas a serem felizes e realizadas. Acho que a maior realização de um pai é quando seu filho ajuda outras pessoas.

[Força Meninas] Você acredita que o desenvolvimento das meninas de hoje contribuirá para a construção de um futuro mais igualitário para todas as mulheres?

Marcos – Eu não tenho dúvida disso. De que o mundo muda toda vez que você muda o seu entorno. A capacidade, a humildade e o esforço para se transformar, desconstruir, é uma atitude revolucionária.

[Força Meninas] Em sua opinião quais serão as características mais importantes para que meninas sejam líderes transformadoras no futuro?

Marcos – Em primeiro lugar a noção de quem elas são. Das suas capacidades, dos seus limites, de rompê-los. O autoconhecimento é uma habilidade, uma ferramenta sensacional para o futuro, para que elas sejam líderes transformadoras. Acredito também na empatia e na capacidade de serem gentis e, de perceberem no outro uma realidade diferente da delas e serem empáticas com isso. Por último acho muito importante a não vitimização, a capacidade de entendimento, de que a dificuldade acontece com todos. Hoje temos grupos de apoio, ferramentas, pessoas dispostas a ajudar as pessoas que precisam mais.

[Força Meninas] Qual conselho daria como pai para outros que buscam desenvolver meninas saudáveis, autoconfiantes e autônomas?

Marcos – Entender que o filho não é seu, que não é projetando nele os seus desejos que ele vai ser feliz. Que as profissões do futuro não foram inventadas e sua filha pode te ensinar muito mais do que você ensina para ela. Entender que você é mais um tutor, uma pessoa para ajudar e não mandar em tudo. Muitos pais não enxergam a necessidade de criar meninas saudáveis, autoconfiantes, autônomas, capazes e, principalmente meninas livres, que entendam a sua liberdade de ser quem elas quiserem, da forma que quiserem.

[Força Meninas] Qual a sua mensagem para meninas que sonham grande?

Marcos – Como eu disse eu mais aprendo do que ensino as minhas filhas e eu continuo dizendo isso a respeito de todas as meninas que sonham grande. As pessoas querem estar do lado de quem sonha grande, pois sonhar pequeno dá o mesmo trabalho. Então sonhe grande porque o mundo precisa de grandes mudanças!

[Força Meninas] Ainda tem algo que o incomode em relação ao tratamento dado para as mulheres , seja em casa, no trabalho, no convívio social? Como mudar?

Marcos – Claro que sim. Me incomoda a sexualização dos meninos pequenos que desde muito novos são incentivados a pegar menina. A sexualização das meninas que com 10 anos são subjulgadas por parentes ou pessoas na rua. A forma como as mulheres são tratadas no ambiente profissional, como os homens ainda criam uma espécie de barreira para entrada delas, por se sentirem incomodados. Tem o preconceito constante que as meninas sofrem nos esportes, no modo como elas se vestem, são cobradas pelo corpo, visual, como se tivessem nascido simplesmente para serem uma coisa bonita para todos os homens avaliarem.

Como a gente muda isso? Acho que falando sobre, criando meninos mais preparados, que respeitem as meninas. Pais e mães de meninos tem um papel fundamental nisso, assim como pais de meninas. Quando a gente fala nesse assunto e prepara as nossas meninas para esse mundo a gente também está preparando elas para mudarem esse mundo.

b

Obrigada Marcos por compartilhar seus desejos, medos e experiências com a paternidade!

 

Deixe um comentário