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Há quase 20 anos, Mentor Muniz Neto publicava suas primeiras crônicas no blog “Não Conte para a Mamãe”. Histórias cotidianas e despretensiosas que logo conquistaram o público. Hoje, o escritor, publicitário, sócio da Bullet Group continua acumulando milhares de seguidores nas redes sociais e já lançou dois livros: “Ódio, Raiva, Ira e Outros Prazeres Diários” e “Proibido Estacionar e Outras Histerias Urbanas”.

Aos 52 anos e com muitas outras histórias para contar, ele que é pai da Manuela, 18 anos, Olivia, 16 e Catarina, 14, dividiu com o Força Meninas as suas experiências, angústias, desejos e aprendizados com a paternidade. Confira a seguir a entrevista:

 

[ Força Meninas] Como foi receber a notícia de que seria pai de uma menina? 

Eu nunca tinha pensado nem mesmo na possibilidade de ter uma filha mulher. A vida toda imaginava que teria um menino afinal meus avós e meus pais só tinham meninos. Mas nunca foi um desejo, muito menos um desejo machista. Era só uma questão que já parecia resolvida. Quando descobrimos que era a Manu à caminho, minha primeira reação foi de preocupação. Eu não fazia a menor ideia de como era ser pai de menina.  Não tinha as referências…nada.

 

[ Força Meninas] Como tem sido a experiência e quais os seus medos?

Por mais que hoje a igualdade de gênero seja uma questão primordial, não há como negar que ainda existe um ambiente muito antiquado. Filmes de princesa, roupinhas cor de rosa, enfim. Por mais que você tente escapar desse estereótipo, ainda é o que está amplamente disponível. Nunca tive medo de educar as meninas e prepará-las para um mundo como o de hoje. Minhas dúvidas eram de como lidar e assimilar o universo feminino enquanto eram pequenas e como seria conviver a vida toda com três mulheres de – a julgar pela mãe que têm – personalidade forte. Com o tempo, percebi que é muito mais gostoso do que eu poderia imaginar.

 

[ Força Meninas] Para você quais os maiores desafios de ser pai? 

Se a gente quer educar filhas para o mundo de hoje, acho que a gente tem que começar por não diferenciar em nada a formação, a educação. A gente ainda vive numa sociedade extremamente machista e é evidente que este é um grande desafio para a minha geração. Curioso como elas me ensinaram muito nesse sentido. Às vezes, a gente tem preconceitos que nem sequer percebe.

Então acho que o desafio é conseguir esse equilíbrio: educar de maneira a torná-las mulheres seguras, que possam competir de igual para igual com os homens, que não aceitem nenhum tipo de diferenciação e que, ao mesmo tempo, também saibam que isso ainda não é o padrão da sociedade e que, infelizmente, apesar de preparadas para a igualdade, ainda terão que lutar por seus direitos.

 

[ Força Meninas] Você acredita que a relação com a sua mãe tenha sido importante para sua formação?  

Minha mãe foi, de longe, a pessoa mais importante na minha formação. Seja pessoal como profissional. Ela foi sempre a pessoa que eu procurava para resolver minhas “dúvidas existenciais” na vida ou na profissão. E só ela. Minha mãe sempre trabalhou muito e tinha esse tipo de experiência de quem bota a mão na massa, sabe como é? Não era uma formação apenas acadêmica e formal. Era também do dia-a-dia, da liderança conquistada e não imposta.

 

“Se a gente quer educar filhas para o mundo de hoje, acho que a gente tem que começar por não diferenciar em nada a formação, a educação”

 

[ Força Meninas] Como é a relação com a mãe das meninas? Vocês ajudam um ao outro a desempenhar seus papeis, enquanto homem e mulher?

Hoje estamos divorciados, mas temos uma relação muito boa. Aliás, mais do que boa. Acho que somos mesmo melhores amigos. Mas acho que essa pergunta não reflete a nossa relação. Explico: Da mesma forma que acredito na relação de igual para igual na educação das meninas, acho que a Luli e eu não temos papeis tão diferentes na vida. Cada um complementava o outro quando éramos casados e continuamos assim hoje. Durante 10 anos trabalhamos juntos, o dia inteiro. Isso deu pra gente um treino onde a gente não tem tarefas tão separadas ou exclusivas.

 

[ Força Meninas] Como você acredita que a relação com a mãe de suas filhas pode ajudá-las a ter relações saudáveis no futuro?  

Aprendi que a relação entre as filhas mulheres e a mãe não é – a primeira vista – uma relação simples. Deve haver algo de atávico nisso. Uma certa tensão no ar quando você mistura três mulheres adolescentes com a mãe. Com o tempo aprendi que não se trata de tensão. Na verdade a Luli representa o ideal, o modelo de uma mulher formada, equilibrada, estável.

Com os hormônios da adolescência é natural a contestação, o conflito com modelos. Quase sempre é só dar tempo ao tempo. Aos poucos as meninas aprendem com a Luli. Então hoje eu sei que muito dessa tensão é apenas esse processo de compreensão e aceitação. O que não quer dizer que seja uma vida de paz 🙂

 

[ Força Meninas] Você acha que os homens estão mais preocupados com a educação dos filhos? 

Não sei dizer. Mas insisto que quem tem bom senso, hoje, ensina pela e para a igualdade dos gêneros.

 

 [ Força Meninas] No caso das meninas, os pais ainda tentam protegê-las demais? 

Infelizmente, essa é uma necessidade. Camille Paglia tem um pensamento interessante sobre este assunto. Que, aliás, difere da lógica feminista atual.Segundo ela, você pode ensinar que suas filhas têm direito àquilo que quiserem. Que são livres como os homens. Mas – segundo ela – é importante, também, lembrar a elas que o mundo ainda não pensa assim.

Então dá um exemplo polêmico: “você, mulher, pode se vestir como quiser, com uma mini-saia por exemplo. Você tem todo o direito de usar sua mini-saia no metrô. E ocorre que 99% das pessoas vão entender e reconhecer este seu direito. Mas 1% não vai. Esse 1% maluco pode achar que tem o direito de assediar você.” Difícil contestar isso. Lamentável pensar que (não por seus direitos, mas pelo contexto da sociedade) as meninas ainda precisem ser mais protegidas que os meninos.

 

 [ Força Meninas] Existe algo do universo feminino que só tenha aprendido depois de ser pai de menina? 

Nossa. Aprendo todos os dias. Do tempo necessário para cuidar da própria aparência ao viés diferente pelo qual encaram das questões mais simples às mais complexas. E falo no melhor dos sentidos. Não só essa geração como o fato de serem mulheres, transformam nosso convívio num aprendizado constante.

 

“Lamentável pensar que (não por seus direitos, mas pelo contexto da sociedade) as meninas ainda precisem ser mais protegidas que os meninos”

 

 [ Força Meninas] Qual a sua maior contribuição para as meninas? 

Acho que o que sempre tentei transmitir a elas – e faria exatamente o mesmo se fossem meninos – é acreditar que com uma boa dose de curiosidade e interesse, qualquer futuro que você desenhar é possível.  E, modéstia a parte, acho que tem funcionado. As meninas sempre me surpreendem com seu desprendimento.

 

[ Força Meninas] Quais são seus desejos para o futuro das meninas?  

Só tenho um único desejo: que sejam plenamente felizes. Um desejo absolutamente impossível de ser cumprido. Ainda mais num país como o nosso, que tira qualquer esperança. Mas como é desejo, é o que eu quero. E o máximo que posso fazer quando partirem para suas vidas, é estar ao lado quando precisarem.

 

[ Força Meninas] Você acredita que o desenvolvimento das meninas de hoje contribuirá para a construção de um futuro mais igualitário para todas as mulheres?  

Pelo que escuto nos diálogos entre minhas filhas e suas amigas e amigos, não é o futuro que será igualitário. O presente delas já é. Não sei se vejo isso por um recorte social específico e tenho certeza que a gente ainda vive numa sociedade absolutamente injusta para as mulheres.

Meu ponto é que se desprezarmos quem tem hoje mais de 20 anos e pensarmos apenas nos mais jovens, me parece evidente que já reina uma nova ética de igualdade de direitos. Escuto isso não só das meninas, mas também dos meninos. Melhor que isso. O gênero nesta geração que vem aí é absolutamente irrelevante se comparáramos com gerações anteriores.

 

[ Força Meninas] Para você, quais serão as características mais importantes para que meninas sejam líderes transformadoras no futuro?  

De novo não acho que existam características femininas. O futuro vai ser definido por quem tem um conhecimento amplo e é versátil para se adaptar.Gente capaz de ter 10 ou 15 profissões ao longo da vida. Conhecimentos cruzados, skills em diversas áreas. Já acontece isso. Basta ver a quantidade de engenheiros em marketing ou finanças. E principalmente uma capacidade profunda de trabalhar em equipe, compartilhar conhecimento e co-criar, livre do ego. A geração que vem por aí tem que fugir dos preconceitos profundos que marcaram a minha geração e o mimimi dos millenials (geração y).

 

[ Força Meninas] Qual conselho daria como pai para outros que buscam desenvolver meninas saudáveis, autoconfiantes e autônomas?  

Difícil dar conselhos de educação. Cada família tem valores tão diferentes. Posso dizer o que Luli e eu tentamos fazer desde que as meninas nasceram:Acima de tudo, demos liberdade às meninas.

Estimulamos a curiosidade, permitimos que experimentem tudo…pintar, tocar, escrever, ler, assistir, ouvir. Censuramos o mínimo possível. Não impusemos limites rígidos para o uso de tecnologias. Deixamos claro a confiança nelas e permitimos que experimentem essa liberdade. Não sei se estamos ou não corretos. Quem pode saber? O fato é que até hoje nunca nos decepcionamos.

 

[ Força Meninas] Qual a sua mensagem para as garotas que sonham grande?  

A mensagem mais simples do mundo. A de que tudo, absolutamente tudo é possível. Porque é. E a gente vê isso no dia a dia. Mulheres em posição de liderança em todas as áreas. Na política, na NASA, nas empresas como CEOs. Não aceite menos do que você sonha. Mas, convenhamos, vale para os meninos também, não?

 

[ Força Meninas] Ainda tem algo que o incomode em relação ao tratamento dado para as mulheres em casa, no trabalho, no convívio social? Conseguimos mudar?  

Evidente que sim. A minha geração lida muito mal com as questões de gênero (e porque não de raça também). É bonito o discurso que, de repente, conflita de frente com as ações. O tempo todo a gente encontra esses preconceitos e mal percebe. Mulheres de uma família que tiram a mesa depois do jantar. Um grupo de 50 mulheres e um único homem ser “eles” e não “elas”. Salários diferentes. Mulheres que são contratadas porque são “bonitas”. E por aí vai. Mas como eu disse, é só uma questão de tempo. Vai mudar.

 

 

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