Ilustração: Daniela Nóbrega

Cinco anos atrás, quando meu pai me contou a história da Malala durante um almoço depois da aula, eu nunca teria imaginado que alguns anos depois estaria a caminho da Cidade do México com a minha avó para conhecê-la.

Na minha memória, tudo aconteceu muito rápido. Eu havia mandado um cartão postal para a Fundação Malala, e isso fez com que eu desse uma entrevista para eles no dia 13 de agosto do ano passado contando um pouco sobre a educação das meninas no Brasil. Nunca me passou pela cabeça que no dia seguinte, por volta das sete e meia da noite, eu receberia um e-mail me convidando para conhecer a Malala no México. Era a primeira vez dela na América Latina.

Minha primeira reação foi travar. Acho que a minha cabeça deve ter dado “bug” por uns dez segundos. Eu não conseguia acreditar, a ficha não caia. Depois, eu reli o e-mail e então corri para o telefone, já chorando de emoção, pra falar com os meus pais.

Entre 14 e 31 de agosto os dias na minha casa tiveram 48 horas: eu não tinha passaporte, e então tivemos que fazer o pedido de passaporte de urgência. A moça disse que só chegaria em dez dias e eu quase comecei a chorar de novo. Foram uns dois dias entre o pedido do passaporte e a chegada dele em minhas mãos. Quando peguei o documento pela primeira vez, não parava de tremer.

Embarquei para o México no dia 31 de agosto às cinco da manhã junto com a minha avó materna. A viagem foi um tanto quanto cansativa, fizemos uma escala em Lima depois de cinco horas de voo e depois foram mais quase quatro horas até a Cidade do México. Nada daquilo importava pra mim. Nem o meu medo de avião apareceu, nem a saudade dos meus pais.

No dia 1° de setembro acordei uma hora antes do necessário. Quem disse que eu conseguia dormir? Se preguei os olhos durante duas horas naquela noite eu saí na vantagem. A emoção era gigante.

Logo de manhã, mais precisamente às 7h45, tivemos o primeiro contato com a Malala. Era só pra tirar uma foto, mas eu não cabia em mim de tanta alegria. Nem sorrir direito eu conseguia de tanto que eu estava tremendo.

Luiza (à esquerda) no encontro com Malala

Luiza Moura (à esquerda) no encontro com Malala

O encontro aconteceu mesmo na hora do almoço na casa Jacaranda, um local que dá aulas e cursos de culinária. Junto com as meninas da Colômbia, do México e com a Malala aprendi a fazer Sopes (uma espécie de tortilha feita com milho) e também molhos mexicanos apimentados. A Malala também fez tudo que a gente fazia. E a Mariana, uma das meninas da Colômbia e que nos ajudou com a tradução, ficou encarregada de fazer perguntas para que nós cinco nos conhecêssemos melhor, já que estava todo mundo com um pouco de medo de falar com a Malala.

Enquanto almoçávamos pudemos realmente conversar, junto ao pai dela e da Farah, a CEO da fundação. Malala quis saber quais eram os problemas que as meninas enfrentavam para ir à escola e as possíveis soluções para esses problemas. Eu falei da falta de professores, cadeiras, cadernos, greves e das condições muitas vezes precárias que os alunos da rede pública enfrentam nas escolas. É claro que existem as exceções mas, infelizmente, essa é a realidade de alguns lugares. Também falei sobre as ocupações das escolas estaduais em 2015 que aconteceram pois o governador do estado de São Paulo iria fechar 94 escolas, o que faria muitos alunos mudarem de colégio e irem estudar muito longe de casa. As meninas tiveram uma imensa e maravilhosa participação nesse movimento.

Mais do que poder dividir com a Malala essas questões, fiquei muito feliz por saber que as minhas (e as nossas) lutas fazem sentido. A Malala luta por educação. Luta pelos direitos das meninas, pela equidade de gênero. Eu também luto por isso. As mulheres lutam por isso. O encontro com ela me fez perceber que por mais difícil que seja levantar todo dia com ânimo para lutar pelos nossos direitos, é necessário que essa luta continue. A Malala conseguiu, quem foi que disse que juntas nós não conseguiremos também?

Ilustração: Daniela Nóbrega

Texto:  Luiza Moura

 

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