Não há inteligência sem emoção

Em um trecho do livro “Carta a D.”, em que o filósofo André Gorz escreve sobre o seu relacionamento com sua esposa Dorine, ele diz como se dirigisse a ela: “você não precisava de ciências cognitivas para saber que, sem intuições ou afetos, não há nem inteligência, nem sentido”. A declaração de Gorz é prova de que ele aprendeu com a companheira sobre a importância da inteligência emocional.  

Sempre fui considerado, pelos outros e também pela minha autocrítica, como uma pessoa “emocional”. Embora tenha capacidade analítica e de raciocinar sobre problemas lógicos, meu temperamento é o que se pode chamar de tipicamente latino: explosivo, dramático e que muitas vezes pode colocar tudo a perder por causa de um ímpeto. E tenho a sensação de que minha filha saiu do mesmo jeito.

Uso a palavra “autocrítica” ao me avaliar como um indivíduo emocional de propósito. Assim como a maioria dos homens, fui educado em uma sociedade que enxerga a expressão das emoções como fraqueza. Não sei quando começou o machismo, mas desconfio que o fato das mulheres conseguirem expor suas emoções com mais naturalidade pode ter a ver com essa origem.

“Homem não chora” é uma frase lapidar da cultura de repressão das emoções. Um lema que, como um punhal, fere dois lados simultaneamente: as mulheres, que são vistas como frágeis e incapazes de lidar com problemas complexos por supostamente terem personalidades “mais emocionais” e os homens, que são criados para não demonstrarem aquilo que sentem e a agir racionalmente, como se fosse possível separar uma coisa da outra. Mas assim como o filósofo austríaco, acredito que é possível aprender que a compreensão das emoções é fundamental para o desenvolvimento da espécie humana.

Nossas emoções surgiram junto com a evolução dos mamíferos há mais ou menos 200 milhões de anos. Do ponto de vista biológico, parece difícil negar que emoção e razão são duas peças indissociáveis de uma mesma máquina: a mente humana. Em artigo no El País, o presidente da Sociedade Espanhola de Medicina Psicossomática e Psicoterapia, José Luis Marín, afirma: “o equilíbrio e a felicidade são encontrados quando as emoções e o pensamento param de brigar

Há alguns anos resolvi assumir meu caráter emotivo. Em vez de negar minhas emoções mais básicas como o medo, a raiva, a tristeza, a alegria, a curiosidade, a repulsa e o amor, comecei a tentar entendê-las e identificá-las. Não é fácil. Estou longe de me considerar exemplar no assunto. Tenho muitas dificuldades de segurar meus fluxos de pensamentos, minha língua e meus impulsos quando a raiva toma conta, criando uma espécie de névoa que me impede de raciocinar e que me leva apenas à ação. Aliás, a origem da palavra emoção, do latim, significa movimento. Faz sentido.

Na minha primeira sessão de terapia, disse que meu meu desafio era ser mais o Doutor Jekyll do que o Senhor Hyde ou mais Bruce Banner do que Hulk.  Também comecei a ler mais sobre o assunto. Uma das primeiras lições tive com o livro “Emotional Awareness”, um bate-papo entre o psicólogo americano Paul Ekman e Dalai Lama. Aprendi que em vez de negar minhas emoções, precisava aprender o que fazer com elas. Dalai Lama fala muito sobre meditação e como ela é capaz de aumentar o tempo de reação entre aquilo que se sente em um instante até a resposta – ou a ação – para aquele sentimento. Nenhum exemplo me parece mais claro do que as reações desproporcionais que temos no trânsito, sempre que alguma coisa nos irrita.  

Aprendi também que a filosofia ocidental, uma adolescente se comparada à idade da ciência do Oriente, negligenciou por muito tempo a necessidade de se compreender os sentimentos.  Figurativamente para nós, uma está mais próxima do coração do que da mente. O que, claro, não tem o menor cabimento. Mas quando vi que até o Dalai Lama enfrenta dificuldades para lidar com suas emoções foi mais fácil admitir minha fraqueza e buscar algum equilíbrio.

Entender as emoções é tão importante que a animação “Divertidamente” deveria ser exibida não só nas escolas para crianças, mas também nas empresas, para adultos. Desde que minha filha nasceu, pude notar como o desenvolvimento das emoções é evidente nos bebês que, ainda sem saber identificar o que sentem, demonstram seus sentimentos basicamente através do choro ou do que acostumamos a chamar de “manha” ou “birra”. No fundo, palavras que servem apenas para nomear emoções mal interpretadas por eles e por nós. Também percebi que minha busca para admitir e lidar melhor com as minhas próprias emocionais foi providencial para educar minha filha, sem reprimir sua sensibilidade, que certamente será muito útil para o seu desenvolvimento humano e intelectual.

Com adultos, a situação é semelhante. Relacionamentos se desgastam, amizades acabam e buscamos coisas inúteis – muitas vezes materiais – tentando tapar o buraco deixado por nossas emoções mal compreendidas ou oprimidas. Na Era Digital, a situação se complica ainda mais. O isolamento e a distância causada por aparelhos eletrônicos tende a tornar ainda mais difícil entender as emoções que sentimos e, mais ainda, as emoções que os outros sentem. Somos cada vez mais crianças fazendo manhas e recebendo birras de volta. O cenário se agrava quando penso na quantidade de adultos infantilizados que estão educando a próxima geração.

Não me parece arriscado afirmar que a solidão, o vazio existencial e, de forma ainda mais extrema, os casos cada vez mais numerosos de suicídio, são reflexos de um mundo que se pretende cada vez mais racionalista, materialista e ignorante dos sentidos da alma. Sofremos com o não entendimento das emoções e da falta de incentivo que deveríamos ter para falar desse assunto sempre. Desde crianças.    

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