Por Amanda Guadiz

Amanda

Hoje, quero falar da ciência brasileira, os desafios que ela enfrenta e compartilhar minha experiência. Mas antes, é necessário me apresentar.

Meu nome é Amanda Guadiz, tenho 18 anos, sou estudante de História e fazer Ciência é minha grande paixão, principalmente na área de educação e na minha amada História.

Desenvolvi, desde de 2016, um projeto que consistiu na criação de um método educacional aplicável em qualquer realidade sociocultural para tratar de temas referentes à gênero, com ênfase em Empoderamento Feminino e Feminismo. O projeto foi aplicado em 3 escolas, públicas e particulares, resultou numa apostila de material didático, e posteriormente, como extensão, desenvolvi um livro de atividades para jovens de 5 a 18 anos para o projeto Jerônymas das escoteiras Bandeirantes do Brasil

Com este projeto, participei de 5 feiras, 4 no Brasil e uma no Chile. Ele foi premiado em primeiro, segundo e terceiro lugar, e também obteve credenciamento para uma feira mundial em Abu Dhabi. Agora, na faculdade, ainda ajudo os alunos do meu antigo colégio a desenvolverem projetos de iniciação científica.

Sou também tutora voluntária em um cursinho popular e espero o momento propício para começar minha Iniciação Científica (IC). Ou seja, pode-se dizer que já faço ciência há um tempo.

A construção da imagem de um cientista

Capa 600x400Quando comecei a participar de feiras, enfrentava constantemente a pergunta: “mas isso que você faz é Ciência mesmo?”, e devo confessar que a enfrento até hoje. Isso acontece porque, principalmente no Brasil, a visão construída das ciências humanas é de algo sem método e extremamente subjetivo, bem diferente das ciências biológicas. Claro, isso nem sempre foi assim (no Brasil Império, por exemplo, meu curso era visto com muito prestígio pela elite brasileira), mas a mudança de paradigma se dá por conta do projeto de desvalorização de tudo que está ligado às humanidades que começou a ter mais força desde a época da Ditadura Militar. 

Uma das razões para isso é o potencial que as humanas têm de perturbar a realidade atual das coisas, seja evidenciando autoritarismo, desigualdade social e preconceitos que (obviamente) não se fundamentam, ou desconstruindo, deslegitimando e, em última instância, destruindo sistemas inteiros. Soma-se isso ao projeto estruturado de descrédito aos órgãos de autoridades do conhecimento e disseminação da visão do pesquisador como aquele que vive “sustentado” pelo governo e têm-se a receita para o cenário desastroso no qual se vê a ciência brasileira atualmente.

Os cortes na educação

Esse projeto de desmonte e descrédito a Ciência tornou-se mais agudo a partir de 2016, quando começaram os primeiros cortes monstruosos nas verbas para as universidades públicas, principais construtoras de ciência e pesquisa brasileiras, nas instituições de fomento à Ciência, como a CNPQ e a CAPES, e quando foi extinto o Ministério da Ciência e Tecnologia. A partir daí, só cresceram os ataques, fortalecidos pelo discurso venenoso e obscurantista sustentador do populismo absurdo das eleições de 2018 e as consequências dela, com a eleição de um governo tão retrógrado e que tem sua única base de argumento na ignorância (faz sentido a desvalorização da ciência e da pessoa do cientista em tal contexto, não?), vistas tanto no ano passado e neste. Vi muitas pessoas brilhantes, com projetos incríveis, perdidos pela falta de verbas, ou então lutando para se sustentar quando deveriam receber salários que refletissem nas coisas importantíssimas que desenvolveram, além da gratidão total da nação. 

Esse cenário de descaso foi aumentando a minha indignação, o que me levou a fazer um post, mostrando que enquanto Bolsonaro exaltava uma cientista jovem de Abu Dhabi que veio ao Brasil divulgar sua iniciação científica, eu e muitos jovens estávamos na mesmíssima situação, mas ninguém apoiava institucionalmente o que fazíamos para que pudéssemos levar nossa ciência ao mundo. O que era apenas um desabafo se tornou um post viral no Facebook, com mais de 10.000 comentários e 20.000 compartilhamentos.

Surgiram muitas pessoas sugerindo que eu abrisse uma vaquinha. Não era esse meu ponto. Eu não me importava em não ir (e realmente não fui), porque apesar de todos os esforços que coloquei na minha paixão, a ciência, também tive sorte, e já tinha recebido muitos reconhecimentos e oportunidades de crescer (cheguei até a receber uma das finadas bolsas do CNPQ para projetos juvenis, na época). Não li quase nenhum dos comentários maldosos, eles não me importavam. Sei de alguns, que me chamavam desde mimada, idiota, vergonha para o país e outras coisas que eu não acho que sou, e algumas coisas que sou, como de esquerda e contra o presidente. Podiam dizer o que quisessem, tudo bem. O que eu queria que entendessem é que enquanto o governo brasileiro exaltava a ciência que vinha de fora, trabalhava vagarosamente pelo desmonte e sucateamento de tudo que fora construído aqui dentro.

Eu não queria falar por mim, queria falar por todos os jovens que estavam perdendo oportunidades porque o projeto de destruição do saber democrático e público no país lhe tomava todas as oportunidades, inclusive as que pude um dia ter. 

Perspectivas para o futuro como historiadora

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Atualmente, faço História na Universidade Estadual de Campinas, e uma pergunta que recebo muito é o que espero de meu futuro enquanto historiadora (quer dizer, não sei bem que futuro, pois segundo o presidente da república, minha profissão não existe). 

Talvez eu surpreenda ao dizer que, apesar de preocupada, tenho muita fé: na História, o obscurantismo e a evolução do pensamento convivem de maneira cíclica. Com isso, não quero esboçar uma crença ingênua em dias melhores que virão sozinhos, pelo contrário, toda vez que um período particularmente negativo na história da humanidade termina, a mudança vem justamente pela luta de milhões de cidadãos, trabalhadores, e indivíduos que além de idealistas, põem as mãos na massa. 

A partir dos protestos e ações concretas de Luther King, Malcom X e muitos outros, a segregação estadunidense chegou ao seu fim. A partir da luta de inúmeros ativistas LGBT+, a luta contra a AIDS, que não ocorria em grande parte por estigmas e preconceitos, passou a receber a atenção necessária e hoje não é mais uma pandemia. A partir das greves e organizações sindicalistas desde a Primeira Revolução Industrial é que existem hoje elementos de proteção ao trabalhador como a CLT. E pelo que conheço de minha geração, sei que não esperaremos a mudança sentados, ainda que a pandemia venha impedindo a mobilização nas ruas.

O ser humano sempre consegue se adaptar: com abaixo-assinados, correntes para e-mails pressionando governantes, convites para “web-atos” de resistência, organizações voluntárias para atender alunos de escola pública (já que o ENEM, irresponsavelmente, não foi cancelado), entre inúmeras outras coisas. Enfim, tenho muita esperança para minha futura profissão.

Victor Hugo, em meu livro preferido, Os Miseráveis, disse que até as noites mais escuras terminarão em algum momento, e aí o sol nascerá. Acho reconfortante e acredito muito nisso, mas nunca me esqueço que seus personagens passaram suas vidas lutando para que o sol pudesse, enfim, nascer.

 

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